A Inteligência Artificial na engenharia já faz parte do cotidiano acadêmico e levanta discussões importantes sobre seus limites técnicos e seu uso responsável no ensino de engenharia. Em áreas como a geotecnia e a engenharia mineral, onde decisões técnicas impactam diretamente a segurança de pessoas, estruturas e operações, o debate torna-se ainda mais relevante.
Para aprofundar essa reflexão, a Geotecnews conversou com Tatiana Barreto dos Santos, bacharela em Engenharia de Minas, mestre e doutora em Engenharia Mineral pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professora adjunta da UFOP e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mineral desde 2019, Tatiana desenvolve pesquisas em geomecânica, geotecnia e data mining aplicada à engenharia mineral, com experiência em mecânica de rochas, estabilidade de escavações e análise de risco geotécnico.
Nesta entrevista, Tatiana Barreto analisa os limites da aplicação prática da Inteligência Artificial na engenharia, seus impactos na formação de engenheiros e os desafios relacionados à tomada de decisão em projetos geotécnicos.
A Inteligência Artificial deixou de ser um tema do futuro e passou a fazer parte do cotidiano acadêmico. Na sua avaliação, em que momento estamos hoje quando falamos da presença da Inteligência Artificial na engenharia e no ensino, especialmente nas áreas mineral e geotécnica?
Sem dúvida, hoje a inteligência artificial é muito utilizada dentro do contexto acadêmico, não necessariamente por nós docentes durante as nossas atividades, mas os alunos fazem uso, muitas vezes de maneira incorreta, na minha opinião, porque a inteligência artificial ainda assim dá muitas respostas incorretas do ponto de vista técnico. Precisamos tomar cuidado com isso.
Se você tem um conhecimento técnico e treina a inteligência artificial para fazer uma determinada operação ou análise com base no conhecimento que você forneceu, pode ser uma ferramenta muito interessante. Mas como geradora de conhecimento é muito complicada, porque faz buscas em bases de dados que muitas vezes não têm nenhum tipo de auditoria e também pode inventar informações.
Ela está muito presente, mas precisamos pensar cada vez mais em uma maneira adequada de utilizá-la, sem prejuízo do ponto de vista técnico e científico.
Como a inteligência artificial tem impactado a dinâmica da sala de aula? O que muda na forma de ensinar, avaliar e estimular o pensamento crítico dos alunos diante de ferramentas cada vez mais automatizadas?
Como comentei anteriormente, verificamos cada vez mais o uso da ferramenta. Mas é muito claro, quando provocamos os estudantes quanto à resolução de problemas reais, principalmente problemas geotécnicos, que essas ferramentas ainda não são adequadas para essa finalidade.
Quando a ferramenta atua efetivamente como quem pensa, toma decisão e realiza cálculos e dimensionamentos, ela comete muitos erros. Baseia-se muitas vezes em conhecimentos que não são verdadeiros. Trabalhamos no sentido de conscientizar nossos estudantes, futuros engenheiros, de que o uso dessas ferramentas com essa finalidade não é indicado.
Muitas vezes resolvemos problemas reais em conjunto dentro da sala de aula e, posteriormente, peço que eles coloquem o mesmo problema em uma inteligência artificial. Eles verificam que a resposta não é correta. É assim que temos estimulado o pensamento crítico e a consciência de que o uso indiscriminado dessas ferramentas, sem conhecimento técnico para avaliar os resultados fornecidos, pode levar a erros graves.
Na sua experiência, quais aspectos da engenharia, especialmente na geotecnia e na engenharia mineral, dependem essencialmente da interpretação, do julgamento técnico e da experiência humana e não podem ser automatizados?
A geotecnia e a engenharia mineral trabalham com a natureza, mais precisamente com a geologia. A natureza é extremamente difícil de ser modelada. Todos os modelos que temos até hoje, inclusive muitos extremamente eficientes, são simplificações da realidade. Não conseguimos modelar 100% a realidade.
O conhecimento das limitações dos modelos, das nossas próprias limitações e das incertezas relacionadas à variabilidade geológica é fundamental. Essa variabilidade pode ter comportamento extremamente complexo. Por isso, hoje não conseguimos substituir um especialista por inteligência artificial.
O especialista reúne conhecimento técnico e experiência prática de campo para observar situações específicas e realizar a tomada de decisão. Nesse ponto, a inteligência artificial não consegue substituir o especialista.
Como a formação universitária pode preparar futuros engenheiros para lidar com a inteligência artificial de forma ética, responsável e consciente?
Hoje é um grande desafio que enfrentamos na universidade, especialmente quem trabalha com inteligência artificial e aprendizado de máquina.
Assim como modelos físicos têm limitações, a inteligência artificial também tem. É importante que nossos alunos compreendam essas limitações e entendam que há risco no uso indiscriminado dessas ferramentas, principalmente em decisões que impactam a segurança e podem gerar consequências graves.
Trabalhamos muito com aprendizado baseado em problemas, apresentando situações reais e acompanhando de perto as soluções propostas, mostrando que a inteligência artificial não é capaz de resolver sozinha esses casos e que pode induzir a erros graves.
Nosso papel não é formar usuários de ferramentas. Eles já conhecem as ferramentas. Nosso papel é mostrar que elas podem ser auxiliares, mas não podem comprometer o senso crítico, a capacidade de validação de resultados e a tomada de decisão.
Existe o risco de formarmos engenheiros que sabem operar sistemas e softwares, mas não compreendem os fundamentos teóricos por trás deles?
Esse risco existe e não é novo com o advento da inteligência artificial. Desde a década de 1980 utilizamos softwares de engenharia.
Se o estudante ou engenheiro não conhece a fundamentação teórica por trás da ferramenta, ele se torna apenas operador de software.
Esse risco existe e não é novo com o advento da da inteligência artificial. É muito comum utilizarmos ferramentas computacionais para modelar estruturas geotécnicas. Se o estudante e o engenheiro não conhecem a fundamentação teórica por trás daquela ferramenta (aquilo que aquela ferramenta ou software calcula) ele se tornam apertadores de botões.
O engenheiro precisa ter senso crítico, conhecer a ordem de grandeza dos parâmetros de entrada e dos resultados, compreender as forças envolvidas na modelagem.
Na UFOP, não iniciamos o uso de software sem que o aluno compreenda previamente a teoria. Antes de utilizar a ferramenta, ele realiza os cálculos manualmente. Só depois utilizamos o software, que agiliza as análises, mas não substitui o entendimento técnico.
Olhando para a próxima década, como você enxerga a relação entre inteligência artificial, pesquisa acadêmica e formação de engenheiros no Brasil?
A inteligência artificial ainda vai mudar muito. As atualizações são rápidas, o que pode ser interessante, mas também preocupante.
Dentro de uma base de dados confiável, pode ser interessante para direcionar pesquisas, por exemplo na hierarquização de artigos em revisões sistemáticas. Porém, o estudante continuará responsável pela leitura crítica e pela avaliação das informações.
Por fim, que mensagem você deixaria para estudantes que convivem com ferramentas de IA e sentem insegurança sobre o futuro da profissão?
A IA veio para apoiar a produtividade. Bem utilizada, ajuda. Mas não vejo, nos próximos anos, a substituição do engenheiro que possui pensamento crítico e conhecimento técnico.
A inteligência artificial ainda é limitada para tomada de decisão, dimensionamento e cálculos complexos. O conselho é utilizá-la como apoio, nunca como substituta na produção de resultados ou decisões técnicas.
O futuro é incerto, mas no cenário atual a profissão segue dependendo essencialmente do julgamento técnico humano.

A professora Tatiana Tatiana Barreto acredita que a discussão sobre Inteligência Artificial na engenharia e na geotecnia ainda está em evolução. No entanto, permanece clara a centralidade do julgamento técnico, especialmente na tomada de decisão em projetos geotécnicos, onde a segurança técnica na engenharia é inegociável.
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