O olhar de um Engenheiro de Registro sobre o futuro da geotecnia

Engenheiro de Registro
Engenheiro de Registro

 

 

Entre rastreabilidade, governança e transformação digital, André Pereira Lima explica por que a tecnologia amplia as possibilidades da engenharia, mas não substitui a experiência de campo

Monitoramentos automatizados, inspeções digitais, bancos de dados e sistemas integrados passaram a fazer parte da rotina das operações. Em uma época em que a engenharia geotécnica produz volumes cada vez maiores de dados, incorpora inteligência artificial e amplia sua capacidade de monitoramento em tempo real, André Pereira Lima segue repetindo a mesma frase aos seus alunos no primeiro dia de aula:

“Geotecnia você não faz sem ir ao campo.”

Engenheiro de Registro (EoR)

Filho de engenheiro geotécnico, André cresceu observando a profissão dentro de casa. A curiosidade despertada ainda na infância acabaria se transformando em carreira. A trajetória profissional começou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde se formou em Engenharia Civil, em 1999. Em seguida, seguiu para a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde concluiu o mestrado em 2002 e o doutorado em 2007.

A tese de doutorado, dedicada à estabilização de taludes em solo grampeado, recebeu o Prêmio Costa Nunes, concedido pela Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS) à melhor tese de doutorado em Geotecnia do biênio 2006-2007. A sintonia com a academia sempre fez parte da jornada, mas nunca ocupou sozinha o centro da sua atuação.

Ao longo da carreira, André atuou em empresas de projetos e consultoria geotécnica, liderou a própria empresa durante uma década e participou de projetos de infraestrutura e mineração em diferentes contextos da engenharia. Entre 2018 e 2020, na Inglaterra, integrou a equipe de uma das principais consultorias de engenharia do mundo. Desde 2020, atua na TPF Engenharia, acompanhando de perto os desafios relacionados à segurança, à governança e à gestão de riscos em estruturas de mineração.

Entre os avanços que considera mais relevantes está a consolidação da figura do Engenheiro de Registro (Engineer of Record – EoR), profissional responsável por acompanhar continuamente as condições de segurança das estruturas de mineração e preservar a memória técnica dos empreendimentos.

“O engenheiro de registro é um grande guardião da estrutura. Ele faz a ligação entre a operação, a alta governança e os consultores externos. É alguém que conhece profundamente o histórico daquela barragem”, explica.

A discussão sobre rastreabilidade, qualidade dos dados e governança técnica tem ocupado espaço crescente nas agendas do setor. Para André, esse movimento está diretamente relacionado à busca por operações mais seguras e decisões mais bem fundamentadas. Apesar da digitalização crescente, o engenheiro geotécnico acredita que algumas características da profissão permanecem inalteradas.

Entre a sala de aula, os projetos e as atividades de campo, André acompanha de perto as transformações que vêm redesenhando a engenharia geotécnica. A seguir, o Engenheiro de Registro e professor da PUC Minas compartilha reflexões sobre tecnologia, segurança, rastreabilidade, formação profissional e os desafios de uma profissão que, mesmo cada vez mais digital, continua começando no campo.

Engenheiro de Registro
André Pereira Lima: Engenheiro de Registro e professor da PUC-Minas

 

Geotecnews: Tenho visto uma preocupação crescente com rastreabilidade e qualidade dos dados. Como o senhor enxerga essa questão na geotecnia atual e olhando para o futuro?

André Pereira Lima: Hoje a gente está com um avanço tecnológico muito notável. A gente fala muito de inteligência artificial, de softwares sofisticados para interpretação de resultados na geotecnia, modelagem numérica, automatização de dados de instrumentação e monitoramento de campo. O volume de informação que recebemos como profissionais é muito grande.

Temos que utilizar tecnologias e ferramentas para armazenar essas informações em bancos de dados e depois interpretá-las. O primeiro desafio das empresas de engenharia é justamente lidar com essa quantidade de informação, considerando armazenamento, custos e segurança dos dados.

Ao mesmo tempo em que aumentou a quantidade de informação, também aumentaram as tecnologias e ferramentas numéricas para a interpretação desses dados. O grande desafio é a qualificação dos profissionais para trabalhar com essas informações.

Geotecnews: Tenho ouvido que qualidade dos dados é importante, mas que sem processos estruturados isso não resolve o problema. Como o senhor vê essa questão?

André Pereira Lima: As grandes empresas de engenharia possuem processos internos de qualidade. Existe uma série de verificações para garantir que as informações utilizadas sejam confiáveis.

Temos camadas de segurança dentro dos projetos, com lideranças técnicas, equipes de controle de qualidade e revisões independentes. Na engenharia não podemos falhar, especialmente quando falamos de mineração. Não existe opção pela falha em um projeto.

Geotecnews: Como o senhor enxerga a evolução da mineração nos últimos anos?

André Pereira Lima: Tivemos um salto muito significativo na questão da segurança e dos processos. A legislação evoluiu, surgiram novas resoluções e houve melhorias na governança.

Um dos grandes avanços foi a criação da figura do engenheiro de registro (EoR), profissional responsável por atuar como guardião das estruturas de mineração. É uma prática consolidada no exterior que foi incorporada ao Brasil nos últimos anos.

Geotecnews: O que é exatamente o engenheiro de registro?

André Pereira Lima: O engenheiro de registro, ou Engineer of Record (EoR), é um profissional que, para estruturas complexas, deve possuir pelo menos 15 anos de experiência em barragens e geotecnia de mineração.

Ele atua como elo entre operação, alta governança e consultores externos. É responsável por manter os registros da estrutura, emitir declarações de estabilidade, realizar auditorias periódicas e acompanhar continuamente as condições de segurança da barragem.

É, essencialmente, um guardião da estrutura.

Geotecnews: Como o senhor vê a adoção do GISTM pelas mineradoras brasileiras?

André Pereira Lima: O padrão global da indústria da mineração veio para ficar. As grandes mineradoras estão buscando atender aos requisitos porque isso fortalece a segurança, a governança e a percepção de confiabilidade.

Vejo que essa busca já está disseminada em toda a cadeia, desde a alta direção até a operação. As empresas estão realizando avaliações e verificações para garantir aderência aos requisitos do GISTM.

Geotecnews: A digitalização e os softwares estão substituindo os registros manuais?

André Pereira Lima: Existe uma tendência clara de utilização de tablets, sistemas automatizados e ferramentas digitais para inspeções e registros.

Mas nada substitui o julgamento de engenharia. Por mais que a tecnologia evolua, a geotecnia ainda exige experiência, observação em campo e interpretação humana. Trabalhamos com solos, com fenômenos naturais, e isso exige vivência profissional.

Esse é um aspecto que considero insubstituível.

Geotecnews: Como o senhor trabalha isso com seus alunos?

André Pereira Lima: Eu sempre digo na primeira aula que geotecnia não se faz sem ir ao campo.

Os alunos precisam entender os problemas na prática, conversar com operadores, equipes de sondagem e profissionais que executam as atividades. É importante combinar embasamento teórico com experiência prática.

A tecnologia ajuda muito, mas ela não substitui a observação direta do problema.

Engenheiro de Registro (EoR)

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