A gestão de risco atualmente se encontra com a engenharia geotécnica em um tempo com acesso a dados, ferramentas e modelos avançados. Ainda assim, falhas continuam acontecendo e nem sempre por limitações técnicas. No contexto da gestão de risco geotécnico, entre cálculos, softwares e fatores de segurança, há um elemento que segue sendo decisivo e, muitas vezes, subestimado: a forma como o risco é compreendido, interpretado e gerido ao longo do tempo.
Com uma trajetória que transita entre a engenharia civil, a gestão da qualidade e a segurança do trabalho, o professor na PUC-Minas e consultor Josias Rossi Ladeira propõe um olhar que ultrapassa o dimensionamento clássico das estruturas. Para ele, o desafio da geotecnia contemporânea não está apenas em prever comportamentos, mas em entender que o risco é dinâmico, sistêmico e, sobretudo, dependente da forma como os dados são trabalhados.
O que é gestão de risco geotécnico. Como surgiu essa conexão entre gestão de risco e qualidade na sua trajetória?
Eu me formei lá na PUC Minas, em Engenharia Civil, e fui para as obras. Na obra, eu vi que as coisas eram muito operacionais, sabe? Muito operacional, mesmo para o engenheiro. E aí eu vi a oportunidade de me especializar na área de qualidade. Voltei para a universidade, fiz Engenharia da Qualidade e entendi que não adianta fazer curso e não aplicar.
Comecei a aplicar isso na empresa construtora, que era da construção pesada. Eu vinha de uma indústria, que era a Acesita, e a cultura da qualidade já estava bem arraigada. Na construção civil, não. Hoje está bem melhor, mas na época tinha que desbravar para o gerente, que era bem operacional, parar, pensar e trazer o pensamento PDCA para a obra.
E sabe onde eu consegui os melhores apoios? Na média gerência não foi. Foi na base. O operacional é que me deu apoio. Aí comecei implantando metodologia e análise de solução de problema. E a gente conseguiu aumentar a produtividade em um britador primário, o que chamou a atenção da direção da empresa, aplicando ferramentas da qualidade.
Depois fui implementando ISO 9000 e trabalhando como consultor em diversos segmentos. Quando chegou nos anos 2000, eu visualizei que qualidade não seria suficiente. Vi a necessidade de meio ambiente, que nem se falava na época, e também de saúde e segurança do trabalho. Aí me especializei também em Engenharia de Segurança do Trabalho e fui aplicando isso nas construtoras, na consultoria e em sala de aula.
Quando chegou em 2003, eu vi que tinha de aprofundar mais. O que eu faço de analogia com os alunos é o seguinte: a graduação é como se fosse uma piscina. A especialização aprofunda o fundo da piscina naquela área do seu conhecimento. O mestrado faz um poço naquele ponto, restringe a área do conhecimento. Aí foi que eu liguei com a geotecnia e a gestão de risco.
O que é piping e como ele impacta o risco em barragens?
Você perguntou logo em seguida do piping, né? Para a época de 2003, ninguém acreditava muito. Mas, para você ter uma ideia, aqui no Brasil já tinham rompido várias barragens, inclusive a barragem da Pampulha. Ela rompeu por piping.
A barragem da Pampulha rompeu por piping?
Rompeu em 1954, quatro anos depois que ela foi construída. E eu fui na Sudecap e ninguém tinha dados. Conversei pela internet, naquela internet de escada, com um professor em Sydney, na Austrália, o Robin Fell. Ele mandou os dados que estavam orientando um doutor, o Foster. E aí, de 1.494 barragens que tinham se rompido no mundo inteiro, inclusive no Brasil, inclusive a da Pampulha, ele tinha os dados que eu não consegui aqui.
Aí eu trouxe para cá uma ferramenta que chama análise por árvore de eventos. Essa análise era uma novidade. Fui desenvolvendo isso e gerei com a professora orientadora essa dissertação sobre uma barragem muito importante para Minas Gerais, que é São Simão. É a principal barragem geradora do Estado, pela potência dela, mas é muito segura. E aí eu avaliei a probabilidade de possível ruptura por piping nas estruturas dela. Fui lá, visitei, trabalhei os dados da construção. Ela inclusive teve um sinal de piping funcionando. Publicamos isso, gerou artigos técnicos, e eu tive a oportunidade de representar o Brasil em um evento internacional em Portugal.
Para o leitor leigo, o que é piping e por que ele é importante dentro da gestão de risco?
Quando você for aproveitar, não é só esse. Esse é um dos modos de falha. Outros dois modos são o galgamento, que recentemente teve uma barragem lá no norte de Minas, e a liquefação, que foi o caso dessas duas barragens que romperam em 2015 e 2019 e várias outras já tinham rompido também.
O que eu estudei, o piping, é a erosão interna na forma tubular. Esse piping significa um tubo. Ela fica na forma de uma erosão tubular. Houve uma trinca na laje, a água foi passando fora de controle, sem registro da época, entupiu, o termo correto é que colmatou o filtro horizontal, aí aumenta a pressão interna de água na barragem e essa pressão sai fora do controle e cria essa erosão interna. Então, resumidamente, o piping é isso.
Ao longo dos anos, como mudou a forma de a engenharia geotécnica enxergar a gestão de risco?
O ser humano age muito por reação e sob pressão. Frente aos acidentes que aconteceram, foi um divisor de águas para a engenharia geotécnica. Nós estamos saindo de uma engenharia determinística, que é chegar no que eu faço a crítica cabalística do fator de segurança. “Ah, deu um, solta o laudo, pode usar.” Não. Isso vai mudar com o tempo.
A estrutura é como um ex-aluno meu fala: é como um ser vivo. A barragem dele respira. À noite ela contrai e de dia ela avança alguns centímetros. É como se ela respirasse. Então ela muda com o tempo, com a chuva e com os locais onde acontecem as coisas.
A gente está saindo daquela seção bidimensional para uma visão tridimensional, dinâmica, para ter uma visão probabilística. O risco não é estático, ele é dinâmico. Então o risco tem que ser trabalhado como uma coisa dinâmica. Hoje, com a ferramenta computacional, a gente ajuda os alunos tendo imagens em 3D, seccionando onde está, com imagens de drone. O drone virou uma ferramenta da engenharia para poder ajudar a interpretar dados.
