Fernando Schnaid: desafios dos rejeitos filtrados

Fernando Schnaid, professor da UFRGS, entrevistado pela Geotecnews
Fernando Schnaid, professor da UFRGS, entrevistado pela Geotecnews

Fernando Schnaid, em entrevista à Geotecnews, analisa a evolução da gestão de riscos na mineração, as incertezas associadas às pilhas de rejeitos filtrados e os desafios que aproximam a pesquisa científica da prática da engenharia.

A disposição de rejeitos de mineração atravessa um período de transformações importantes no Brasil. A evolução das exigências regulatórias, a incorporação de novos conceitos de gestão de riscos e a busca por alternativas aos métodos tradicionais de disposição vêm modificando a maneira como a engenharia geotécnica investiga, projeta e acompanha essas estruturas.

Nesse cenário, a expansão do uso de rejeitos filtrados coloca novas questões sobre o comportamento dos materiais, os métodos de caracterização e a capacidade de prever o desempenho de estruturas de grandes dimensões. Esses desafios estiveram entre os temas da Conferência Pacheco Silva, apresentada pelo engenheiro e pesquisador Fernando Schnaid durante o COBRAMSEG 2026, realizado em Brasília.

A discussão trouxe para o centro do debate técnico a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre os rejeitos de mineração, especialmente diante de condições de disposição e níveis de tensões que exigem uma análise criteriosa dos métodos tradicionalmente empregados na mecânica dos solos.

Professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Schnaid construiu uma trajetória que reúne pesquisa científica, formação de profissionais e atuação institucional. Doutor pela Universidade de Oxford, ex-presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS) e autor de obras de referência sobre investigação geotécnica, acompanha há décadas o desenvolvimento de métodos de investigação, interpretação e modelagem do comportamento dos materiais.

Entrevista | Fernando Schnaid

Essa experiência oferece uma perspectiva sobre as mudanças que se intensificaram na engenharia geotécnica brasileira após os rompimentos de barragens de mineração em Mariana e Brumadinho. A ampliação dos instrumentos de controle e das exigências de segurança foi acompanhada por uma evolução conceitual que exige compreender, com maior profundidade, os mecanismos de comportamento e ruptura dos rejeitos.

A seguir, Fernando Schnaid discute os avanços e as limitações desse processo, as incertezas associadas às pilhas de rejeitos filtrados e os desafios de integrar investigação de campo, ensaios laboratoriais e modelos constitutivos. A conversa também aborda o papel da governança na consolidação de uma cultura permanente de segurança e as questões que ainda demandam respostas da pesquisa científica.

 

  1. Professor, sua trajetória acompanha diferentes momentos da geotecnia brasileira, da pesquisa e formação de profissionais à atuação na ABMS e ao diálogo com a indústria. O que mudou de forma mais profunda na maneira como a engenharia geotécnica brasileira compreende e enfrenta os riscos associados aos rejeitos de mineração?

Foram muitas mudanças, pois estamos em um processo de profundas transformações. Há avanços no plano teórico, nas ferramentas de investigação e nos próprios conceitos de projeto.

Uma transformação particularmente importante foi a passagem de uma visão determinística, quase exclusivamente baseada em fatores de segurança, para uma abordagem mais ampla de gestão de riscos. Houve também a implementação do Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos (GISTM), que estabelece diretrizes internacionais de gestão e governança e integra as etapas de investigação geotécnica, projeto, operação e monitoramento.

Os acidentes recentes mostraram que não basta verificar a estabilidade de uma estrutura. É preciso compreender o comportamento geomecânico dos rejeitos, o estado e a variabilidade desses materiais, bem como os possíveis mecanismos e gatilhos de ruptura.

O engenheiro geotécnico precisa hoje dominar conceitos avançados sobre o comportamento dos materiais, estimar adequadamente seus parâmetros e compreender os modelos constitutivos capazes de representar esse comportamento. Isso trouxe para o centro da prática conceitos como estado crítico, parâmetro de estado, comportamento contrátil e liquefação.

Em síntese, a geotecnia brasileira está cada vez mais voltada à compreensão e à gestão de riscos, sustentada por uma sólida base teórica.

  1. A migração de barragens para pilhas de rejeitos filtrados costuma aparecer associada a um novo patamar de segurança. Quais incertezas geotécnicas surgem ou ganham importância nessa transição e ainda demandam maior conhecimento técnico e científico?

A transição para pilhas de rejeitos filtrados representa uma mudança importante, que inclui a redução do dano potencial em caso de instabilidade. Mas não elimina as incertezas geotécnicas. Em muitos casos, apenas muda a natureza dessas incertezas.

Passam a ganhar importância aspectos como o controle de compactação, a estrutura do material depositado, a condição de saturação, a sucção e o nível de tensões. Isso sem esquecer a necessidade de controlar a suscetibilidade à liquefação, especialmente em situações de ineficiência dos métodos de controle.

Permanece fundamental compreender o comportamento dos rejeitos, agora dispostos em condições mais controladas, e sua resposta sob diferentes trajetórias de tensões, especialmente quando apresentam comportamento contrátil.

Portanto, a segurança de uma pilha de rejeitos filtrados depende da tecnologia de filtragem, de um projeto seguro e de controles adequados de construção, drenagem, compactação e monitoramento, apoiados por uma caracterização geotécnica consistente.

Os desafios geotécnicos das pilhas de rejeitos filtrados 

  1. Pilhas de rejeitos filtrados podem alcançar grandes dimensões e envolvem materiais cujo comportamento nem sempre se enquadra de maneira simples nas referências tradicionais da mecânica dos solos. Até que ponto os métodos de investigação, ensaios e modelos que utilizamos hoje estão preparados para caracterizar essas estruturas em escala real?

Ainda há limitações importantes, pois é necessário adaptar conhecimentos e métodos desenvolvidos para solos naturais às particularidades dos rejeitos de mineração, submetidos a níveis de tensões superiores aos usualmente considerados em obras de infraestrutura civil.

O desafio está em combinar investigação de campo, ensaios de laboratório e modelos constitutivos capazes de representar adequadamente as condições reais de disposição. Em estruturas de grande porte, a extrapolação da escala de laboratório para a escala de campo ainda exige julgamento de engenharia e avanços científicos.

  1. Depois de Mariana e Brumadinho, o Brasil avançou em regulação, monitoramento e descaracterização de estruturas. Na sua avaliação, qual é hoje o principal desafio para transformar esse avanço regulatório em uma cultura permanente de segurança geotécnica, inclusive quando a memória desses acidentes começar a ficar mais distante?

Os acidentes exigiram maior conservadorismo nos critérios de projeto e maiores cuidados nos controles construtivos e operacionais, tanto no Brasil quanto no exterior. Houve também uma evolução importante das diretrizes internacionais, incluindo aquelas estabelecidas pela Comissão Internacional de Grandes Barragens (ICOLD), posteriormente incorporadas, em diferentes graus, às normas e regulamentações nacionais.

São dois os principais desafios atuais. O primeiro é transformar exigências regulatórias em prática técnica permanente. A segurança não pode depender apenas da fiscalização, mas precisa estar incorporada à governança, à tomada de decisão e à qualificação das equipes.

A cultura de segurança se consolida quando o gerenciamento de riscos passa a fazer parte do processo decisório, e não apenas do atendimento à norma.

O segundo desafio consiste em consolidar um novo estágio de conhecimento que permita reavaliar algumas das premissas atualmente adotadas. Um exemplo é a discussão sobre barragens construídas pelo método a jusante, prática tecnicamente aceita e utilizada internacionalmente, mas que passou a enfrentar restrições mais severas no contexto brasileiro.

  1. O senhor destacou no COBRAMSEG a necessidade de uma aproximação maior entre universidade e indústria. Que perguntas sobre disposição de rejeitos a prática está colocando hoje para a academia e que ainda não têm respostas suficientemente consolidadas?

Essa aproximação é necessária não apenas na geotecnia de rejeitos, mas em todas as áreas do conhecimento. A universidade tem papel fundamental na produção de conhecimento, no desenvolvimento de métodos e na formação de profissionais. O setor produtivo, por sua vez, identifica os problemas reais e as limitações operacionais.

Quando existe sinergia entre esses dois ambientes, a pesquisa passa a responder a problemas concretos e a prática se beneficia de soluções mais qualificadas e fundamentadas cientificamente.

No caso dos rejeitos, há muitas questões que ainda precisam de aprofundamento, como o comportamento dos materiais submetidos a diferentes trajetórias de tensões, os efeitos de escala e a previsão de desempenho a partir de modelos constitutivos adequados.

É justamente nesse espaço entre a teoria e a prática que a interação entre universidade e indústria se torna mais valiosa.

Fernando Schnaid, professor da UFRGS, entrevistado pela Geotecnews
Fernando Schnaid, professor da UFRGS, entrevistado pela Geotecnews
Fernando Schnaid, professor da UFRGS, entrevistado pela Geotecnews

Veja também:

Para a professora Helena Paula Nierwinski, novas tecnologias ampliam as possibilidades de análise na engenharia geotécnica. Contudo, grandes volumes de informação só...

A Inteligência artificial na engenharia geotécnica e toda evolução das tecnologias digitais amplia a capacidade de processar dados, automatizar análises e desenvolver...

A confiabilidade do QA/QC geotécnico está diretamente relacionada à qualidade dos dados que sustentam as análises na engenharia geotécnica. Em obras geotécnicas,...

;