Não existe uma única adaptação climática para o Brasil. Secas prolongadas, enchentes, deslizamentos, escassez hídrica e ondas de calor já fazem parte da realidade de diferentes regiões do país. Mas os impactos das mudanças climáticas não se distribuem de forma homogênea. Enquanto alguns territórios enfrentam desafios relacionados à disponibilidade de água, outros convivem com eventos extremos cada vez mais frequentes, infraestrutura insuficiente e diferentes níveis de vulnerabilidade social.”
Para Francinelli de Angeli Francisco, doutora em Ciências Ambientais e colaboradora da plataforma AdaptaBrasil, compreender essas diferenças é um dos principais desafios da adaptação climática. “Não existe uma única adaptação para o Brasil; existem múltiplas estratégias de adaptação que precisam dialogar com realidades locais, regionais e nacionais.”
A pesquisadora atua na construção e análise de indicadores capazes de apoiar políticas públicas e o planejamento climático. Seu trabalho está diretamente ligado ao AdaptaBrasil, plataforma pública desenvolvida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), que disponibiliza informações sobre riscos climáticos para diferentes setores estratégicos do país.
Na avaliação de Francinelli, o Brasil já dispõe de dados, metodologias e instrumentos capazes de apoiar o planejamento territorial. O desafio está em transformar essas evidências em decisões capazes de orientar investimentos, reduzir vulnerabilidades e preparar cidades, infraestruturas e atividades econômicas para um cenário climático em transformação.
Pensando nos impactos dessa discussão para o planejamento, a gestão de riscos e setores estratégicos como a mineração, a Geotecnews conversou com exclusividade com Francinelli de Angeli Francisco. Confira a entrevista completa.

1. Conte um pouco sobre o AdaptaBrasil. Como essa plataforma contribui para a materialização da chamada agenda azul no Brasil atual?
O AdaptaBrasil (https://adaptabrasil.mcti.gov.br/) foi desenvolvido por meio de uma cooperação entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Rede Nacional de Pesquisa e Ensino (RNP), sendo fomentado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Trata-se de uma plataforma pública que disponibiliza informações sobre risco climático para diferentes setores estratégicos do Brasil. A proposta central é consolidar, integrar e disseminar informações que possibilitem o avanço das análises dos impactos da mudança do clima, observados e projetados no território nacional, dando subsídios às autoridades responsáveis pelas ações de adaptação.
A plataforma tem como base conceitual a flor de risco do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), que entende que o risco climático não depende apenas da ameaça climática (ex.: aumento de temperatura, secas, chuvas intensas ou ondas de calor), mas da interação com a exposição (ex.: população, territórios, biomas e municípios) e a vulnerabilidade (sensibilidade e capacidade adaptativa) dos elementos expostos a determinadas ameaças climáticas.
Isso permite compreender por que um mesmo evento climático pode produzir impactos muito diferentes em municípios, regiões e grupos sociais distintos.
Quando falamos em agenda azul, estamos falando da água como eixo estruturante da adaptação climática no Brasil. Isso inclui segurança hídrica, saneamento, bacias hidrográficas, abastecimento, agricultura, energia, biodiversidade, cidades, infraestrutura e também a zona costeira e oceânica. O AdaptaBrasil contribui para essa agenda porque permite observar o risco climático de forma territorializada, ajudando gestores e instituições a compreenderem onde os riscos associados à água tendem a ser mais críticos, quais populações e sistemas estão mais vulneráveis e quais territórios devem ser priorizados em políticas de planejamento e adaptação.
2. Como você enxerga o reposicionamento da agenda climática brasileira, especialmente no que diz respeito à adaptação?
Durante muito tempo, a agenda climática brasileira foi fortemente associada à mitigação, especialmente ao controle do desmatamento, à transição energética e à redução de emissões. Esses temas continuam fundamentais, mas não temos a opção de não nos adaptarmos, porque os impactos da mudança do clima já estão acontecendo nos territórios.
A mudança do clima deixa de ser apenas uma agenda do clima e passa a ser uma agenda de sustentabilidade. O Brasil segue sendo destaque em relação às medidas de mitigação e adaptação, e isso é especialmente relevante porque somos um país continental, altamente desigual e com grande diversidade de biomas, regimes climáticos, formas de ocupação e capacidades institucionais. Adaptar-se à mudança do clima significa reconhecer essas diferenças e produzir respostas compatíveis com cada território. Não existe uma única adaptação para o Brasil; existem múltiplas estratégias de adaptação que precisam dialogar com realidades locais, regionais e nacionais.
3. O Brasil já dispõe de dados, metodologias e instrumentos públicos relevantes. Como transformar evidência em prioridade política, desenho institucional, coordenação interfederativa e decisão concreta?
Esse talvez seja um dos maiores desafios da política climática brasileira: transformar dados em decisão.
A plataforma AdaptaBrasil integra, analisa e disponibiliza informações sobre riscos climáticos atuais, projeta cenários futuros para diversos setores estratégicos e oferece acesso gratuito aos dados para que qualquer pessoa possa consultá-los e utilizá-los. Além disso, disponibiliza capacitações gratuitas para interpretação dessas informações.
Para transformar essa evidência em decisão, são necessários governança, capacitação, financiamento, continuidade institucional e compromisso político. A evidência precisa deixar de ser apenas diagnóstico e passar a orientar prioridades, investimentos e monitoramento.
4. Em que medida decisões baseadas em evidências podem ampliar a capacidade de previsão, prevenção e resposta a riscos climáticos?
Decisões baseadas em evidências ampliam a capacidade de previsão porque permitem identificar tendências, padrões territoriais e populações mais vulneráveis antes que os impactos se agravem. Elas ajudam a responder perguntas muito concretas: onde o risco é maior? Quem está mais exposto? Qual sistema é mais sensível? Onde a capacidade adaptativa é menor? Quais medidas podem reduzir perdas e danos?
As evidências não eliminam as incertezas, pois as mudanças do clima envolvem cenários, probabilidades e limites de previsão. Ainda assim, decisões baseadas em evidências reduzem o improviso, aumentam a transparência e tornam a gestão de risco mais estratégica. Ter informação qualificada permite direcionar equipes, insumos, infraestrutura e comunicação para os territórios mais críticos, pois, em situações de emergência, os recursos são limitados e o tempo é curto.
Os investimentos em adaptação são menores do que os custos de remediação após os impactos dos eventos extremos. Quando utilizamos dados de risco climático, podemos orientar obras de drenagem, proteção de encostas, recuperação de vegetação, planejamento urbano, ampliação de áreas verdes, políticas de saúde preventiva, segurança hídrica, sistemas de alerta precoce e proteção de populações vulneráveis.
5. O AdaptaBrasil pode contribuir para a evolução do processo mineral no Brasil, especialmente em temas como gestão de risco, segurança hídrica e planejamento territorial?
A mineração é uma atividade fortemente dependente do território, da água, da infraestrutura, da estabilidade física das áreas e da relação com comunidades e ecossistemas. A plataforma não substitui instrumentos específicos do setor mineral, como licenciamento ambiental, gestão de barragens, planos de emergência ou estudos geotécnicos, mas pode qualificar o contexto climático em que essas decisões são tomadas.
A mineração precisa incorporar cada vez mais a variável climática em seu planejamento. Eventos extremos, secas prolongadas, chuvas intensas, alterações do regime hidrológico, aumento da temperatura e riscos de desastres podem afetar a segurança operacional, a disponibilidade hídrica, a logística, a estabilidade de estruturas, as relações com comunidades e os passivos socioambientais.
Nesse sentido, o AdaptaBrasil pode apoiar análises territoriais preliminares, identificação de áreas mais suscetíveis a determinados riscos, diálogo com políticas públicas, planejamento de medidas de adaptação e avaliação integrada entre risco climático, segurança hídrica e ordenamento territorial. Para o setor mineral, isso significa sair de uma lógica apenas reativa e avançar para uma gestão preventiva, adaptativa e baseada em evidências.
6. Em um país em que quase 90% da população vive em áreas urbanas, como pensar adaptação climática, compromisso social e infraestrutura de forma integrada?
A maior parte da população brasileira vive em áreas urbanas, mas essas áreas são profundamente desiguais. Os impactos climáticos não atingem todos da mesma forma. Chuvas intensas, enchentes, deslizamentos, ilhas de calor, falta de saneamento, escassez hídrica e problemas de saúde afetam de maneira mais severa populações que vivem em áreas periféricas, encostas, fundos de vale, assentamentos precários e regiões com baixa infraestrutura.
Por isso, para a adaptação, é fundamental integrar infraestrutura verde, soluções baseadas na natureza, drenagem urbana, contenção de encostas, saneamento, habitação segura, mobilidade, arborização, parques lineares, restauração de áreas degradadas e proteção de nascentes como parte de uma mesma estratégia.
Adaptar as cidades é reduzir vulnerabilidades históricas, proteger vidas, diminuir desigualdades e melhorar a qualidade dos serviços públicos. Uma cidade adaptada não é apenas uma cidade que resiste melhor a eventos extremos; é uma cidade mais justa, mais saudável, mais planejada e mais capaz de cuidar das pessoas. Esse é o compromisso social.
7. Qual é o lugar do Brasil na agenda climática mundial, considerando seus desafios territoriais, hídricos, ambientais e institucionais?
O Brasil ocupa um lugar muito estratégico na agenda climática mundial. Por um lado, temos uma responsabilidade enorme por abrigar biomas fundamentais para a regulação climática, como a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal e o Pampa, além de uma das maiores disponibilidades hídricas do planeta. Por outro lado, somos um país muito vulnerável aos impactos climáticos, com desigualdades sociais profundas, grandes cidades expostas, dependência de recursos naturais e desafios importantes de governança territorial.
Isso coloca o Brasil em uma posição dupla: somos parte essencial da solução climática global, mas também precisamos enfrentar riscos internos crescentes. A proteção dos biomas, a redução do desmatamento, a transição para uma economia de baixo carbono, a segurança hídrica, a produção de alimentos, a adaptação urbana e a proteção de populações vulneráveis são dimensões inseparáveis.
O Brasil tem capacidade científica, institucional e territorial para liderar uma agenda climática que una mitigação, adaptação, biodiversidade, justiça climática e desenvolvimento. Mas essa liderança depende de continuidade política, fortalecimento institucional, financiamento adequado, integração entre ciência e decisão e capacidade de implementar políticas no território.
8. O tema do COBRAMSEG 2026 traz a pauta ambiental para o centro de um dos principais eventos brasileiros de engenharia geotécnica. Qual é a relevância dessa discussão para o setor?
A edição deste ano reunirá especialistas para discutir avanços em geotecnia e promover o desenvolvimento sustentável e seguro da sociedade. O debate propõe uma reflexão importante: como a geotecnia pode responder aos desafios e reconhecer as oportunidades relacionadas às mudanças climáticas?
Trazer essa pauta para o COBRAMSEG significa reconhecer que a geotecnia não pode ser pensada de forma isolada do território, da água, do clima, da ocupação urbana e da vulnerabilidade social. Um deslizamento, uma ruptura, uma inundação ou uma instabilidade de talude não são apenas problemas técnicos; são eventos com consequências sociais, econômicas, ambientais e institucionais.
Esse debate aproxima a engenharia de uma visão preventiva e sistêmica. A engenharia geotécnica tem papel decisivo na mitigação e adaptação climática, na redução de riscos de desastres, no planejamento territorial seguro e na proteção de populações expostas. Em um contexto de mudança do clima, projetar com base apenas no passado pode não ser suficiente. É preciso incorporar incertezas, cenários e gestão adaptativa.
9. Para fecharmos, conte um pouco sobre sua carreira, sua trajetória acadêmica e sua atuação na construção de decisões baseadas em evidências.
Minha formação é em Engenharia Florestal pela UFLA, com doutorado em Ciências Ambientais pela UFPA. Desde a graduação, meus trabalhos sempre foram voltados para a análise de sustentabilidade e vulnerabilidade, seja para sistemas de produção ou ambientes urbanos, considerando questões socioeconômicas e ambientais.
Nos últimos anos, minha atuação tem se concentrado na construção e análise de indicadores e índices capazes de apoiar políticas públicas e o planejamento climático, atuando na equipe da plataforma AdaptaBrasil.
Para mim, decisões baseadas em evidências não significam apenas utilizar dados, mas interpretar essas informações com responsabilidade, reconhecer incertezas, compreender desigualdades e apoiar escolhas que façam sentido para os territórios e para as populações mais vulneráveis.
Acredito que a ciência tem um papel fundamental na adaptação climática, mas ela precisa ser comunicada de forma acessível e aplicada. Meu trabalho busca justamente contribuir para essa ponte: transformar informação técnica em conhecimento útil para o planejamento, a gestão de riscos e a construção de políticas públicas mais justas e cidades resilientes.